Chapter Text
-UM, DOI, TRÊS VAI! - Félix fez a contagem inicial batendo com suas baquetas, vibrando de emoção durante o primeiro ensaio.
“Agora eu sei qual o meu caminho
As escolhas que eu mesmo fiz”
“Aprendi com meus erros pra chegar aqui
Julie estava mais empolgada do que nunca. Era o primeiro ensaio com os garotos vivos.
Vi que o medo não vence os sonhos
E por nada vou desistir
Tenho fé no som, tenho fé em mim
Eu tenho fé em mim”
Daniel cantou a segunda voz com Julie, surpreendendo todos dentro da edícula. Ele raramente usava a sua voz nos ensaios, já que não adiantaria nada treinar e não poder gravá-la, por conta da microfonia, mas agora que estava vivo e sem nenhum problema técnico, estava cumprindo a promessa de dividir o microfone com a namorada.
“Nada vai segurar
Quem sabe aonde quer chegar
Aonde quer che….”
FIIIIUNNNNNN POOF! - O som estourou os tímpanos de todos os presentes, fazendo os garotos criarem uma carranca.
-Ah, qual é? Queimar justo agora o amplificador? - Martin reclamou.
-Não acredito que no nosso primeiro ensaio isso acontece! - Daniel estava frustrado.
-Gente, vocês estando vivos ou mortos isso já iria acontecer. - Pedrinho, que estava ao lado de Bia, confessou. - Eu já tinha comentado com Julie sobre como os eletrônicos precisavam de manutenção, mas ela me escutou?
-Não podíamos ficar sem ensaiar!
-E agora vão fazer o que?
-Ficar sem ensaiar. - Félix respondeu.
-O jeito é colocar para consertar, Julie. - Daniel foi enfático.
-Tem ideia de onde? Eu nunca usei tanto ao ponto de quebrar algum instrumento.
-Aquela loja de instrumentos, no centro da cidade.
-Ah, aquela que você assombrou por um tempo? - Martin se lembrou.
-....É. - Daniel revirou os olhos.
Todos eles estavam mais do que entusiasmados para o primeiro show que aconteceria no final da semana, com Bia e Pedrinho não querendo perder um minuto do ensaio - embora ela estivesse mais focada no site da banda e ele ajustando o som dos equipamentos. Bia e Pedrinho estavam sentados lado a lado no sofá, enquanto Julie, Daniel e Martin ensaiam a sua performance no espaço livre, já que agora eles se permitiam mover-se mais.
-Não vai ter jeito, gente. Não tem como tocar no final de semana sem amplificador. - Martin lamentou. - Será que se vocês forem lá agora dá tempo de ficar pronto?
-Só vamos descobrir se irmos. - Daniel olhou para o relógio na parede. - Eles fecham em uma hora e meia, acho que dá tempo. - Daniel declarou enquanto tirava a sua guitarra e a guardava em seu estojo.
-Então, quem vai comigo?
-Hã…. Julie é a dona do amplificador, e você é quase o dono da loja, então…. - Félix não precisou ser mais específico.
Chegava a ser fofo o entrosamento entre os dois: eram namorados, mas ainda ficavam tímidos com o início do namoro. Mesmo que já fossem muito amigos antes, bem, era um fantasma com uma viva.
-Vou só pegar a minha bolsa. - Julie declarou, colocando seu microfone no pedestal e ameaçando a sair da edícula.
Mas com toda a confusão do estouro do amplificador, ninguém tinha escutado o carro de seu Raul chegar na garagem, pregando todos desprevenidos quando o homem apareceu diante da porta recém aberta por Julie.
-O que está acontecendo aqui, Juliana? - Ele ainda não tinha visto Bia e Pedrinho, apenas encarava os trÊs rapazes com uma expressão nada boa.
-PAI! - Julie gritou, assustada. - O que está fazendo em casa tão cedo?
-Eu é quem te pergunto, Juliana! Quem são eles e o que estão fazendo aqui?!
--Eu… A gente… Eles são meus amigos, pai!
-É, seu Raul! Não tem problema nenhum não! - Bia se intrometeu, finalmente sendo notada.
-É, pai! Eles só estavam ensaiando! - Pedrinho tentou defender a irmã.
-Ensaiando? Ensaiando o quê?
-A gente tem uma banda. - Julie estava meio estática. - Quer dizer, só eu e os garotos. Bia assessora a gente e o Pedrinho ajuda com o áudio.
-Julie, desde quando você traz esses garotos para cá? Uma banda?
-Não tem muito tempo - Julie mentiu descaradamente. - Não contei para o senhor porque não tinha noção se daria certo ou não, e não queria colocar muita expectativa…. Mas….
-Mas até o seu irmão está sabendo disso!
-O senhor sabe mexer com equipamento de som? - Pedrinho questionou.
-Não.
-Exatamente por isso. - Pedrinho respondeu, notando Martin e Félix se entreolharem segurando o riso.
-Pedro! - Seu Raul se alterou.
-Fica tranquilo, pai! - Julie tentou acalmá-lo.
-E você, Juliana! Não aprendeu sobre trazer estranhos para casa? Olha só para eles! Gente muito mais velha do que vocÊ….
-Com licença, senhor, mas somos só um ano mais velhos do que Julie. - Félix se impôs.
-Dois, no meu caso. - Martin consertou.
-A minha barba me faz parecer mais velho, mas eu posso provar para o senhor a minha idade. - Daniel puxou do bolso sua carteira, pegando sua identidade e entregando para seu Raul, que de fato conferiu seu ano de nascimento, reparando também na diferença de fotos.
- E não somos estranhos. Começamos a banda a algumas semanas, mas já nos conhecemos a alguns meses. uns cinco ou seis. - Daniel elaborava a história, deixando que os outros o ajudassem na mentira.
-E onde se conheceram?
-Na loja de discos, no centro da cidade. Viemos para Campinas para um concurso de bandas, mas infelizmente não fomos selecionados.
-Chegamos uma hora atrasados para a seleção. - Martin cobriu o furo.
-Aí fomos até a loja de discos e encontramos com Julie e Bia. Conversamos um pouco e trocamos contato. Nos estabelecemos na cidade e a algumas semanas convidamos ela para fazer parte da banda.
-Vocês não estudam? - Seu Raul tinha um olhar julgador.
-Ela convenceu a gente a voltar a estudar. Não que não quiséssemos nada com os estudos, mas infelizmente nossos pais faleceram e tínhamos que nos sustentar de alguma forma.
-Os pais dos três? - Ele desconfiava.
-É doloroso falar, mas eles estavam atravessando a rua quando um caminhão frigorífico perdeu o controle. Eles eram muito amigos…. - Félix confessou com a voz embargada, com algumas lágrimas ameaçando cair, logo sendo amparado por Martin.
-Viemos para cá em busca de uma chance na música, e enquanto não conseguimos, estudamos em um supletivo para conseguir o diploma mais rápido e conseguirmos um emprego fixo.
-E estão ficando onde? - Seu Raul tinha uma expressão preocupada.
-O dono da loja de discos alugou um quartinho para a gente.
-Eu sinto muito, rapazes….?
-Ah, Daniel é o guitarrista, Martin o baixista e Félix o baterista. - Julie respondeu.
-E de onde vocês vieram, garotos? - Seu Raul já tinha esquecido que não conhecia eles, gostando de novas companhias masculinas na casa.
-Taubaté. - Martin respondeu na cara dura, vendo Julie e Bia segurarem o riso.
-É uma distância bastante grande.
-Tínhamos muita confiança no concurso, mas…. Estamos agora esperando uma nova oportunidade, com Julie dessa vez.
-E o que estão esperando? Não vou poder ouvir uma palhinha?
-Pai… O nosso amplificador acabou de queimar…. Estávamos saindo para colocar no conserto.
-Qual é, Julie! Não precisa ficar envergonhada! Só uma palhinha! - Seu Raul insistiu.
Martin deu de ombros para Daniel, e como o guitarrista já havia guardado a guitarra, Martin deu os primeiros acordes no baixo, agoniando os ouvidos dos presentes.
-É, acho que entendi. Querem uma carona?
-Não precisa, pai! - Julie se adiantou. - Vamos, Daniel?
-Bora.
Daniel pegou o amplificador, apertou a mão do sogro e saiu pela porta, dando um joinha para os amigos que ficariam aturando o mais velho.
***
-Eu sabia que uma hora ou outra íamos encontrar com seu pai, mas não imaginei que seria logo na nossa primeira visita. - Daniel puxava conversa enquanto caminhavam até a loja.
-É o que acontece quando se é visível e tangível. - Julie esbarrou no mais alto de propósito, rindo sem graça. - Como conseguiu elaborar aquela história tão rápido?
-Ah, isso. Eu e os rapazes já tínhamos formulado isso, justamente pensando nessa possibilidade.
-Pensaram ontem a noite?
-E adicionamos o Taubaté antes de apertarmos a sua campainha,
-E escolheram essa cidade ao acaso? Porque lá é meio que a cidade….
-Das mentiras? É, nós sabemos da grávida de Taubaté. Nada mais justo do que adolescentes e acidentes fictícios. Quer dizer…. Ao menos esse foi fictício. Ficamos com medo do seu pai procurar por acidentes de caminhão por aqui e descobrir que na verdade fomos nós a morrer.
-Mas Demétrius disse que ninguém se lembraria.
-Não, ele disse que ninguém se lembraria se tivesse nos conhecidos enquanto vivos. Ele nos conheceu na nossa segunda chance, então poderia nos reconhecer nos jornais. Félix ainda se ressente quando se lembra, por isso ele conseguiu chorar e convencer o seu pai.
-Vocês vão me contar um dia sobre isso? Ou realmente estavam salvando criancinhas?
-Eu não vou contar. - Daniel sorriu de lado. - Estamos vivos, e é isso o que importa. - Daniel segurou na mão de Julie, a apertando.
Eles entrelaçaram os dedos e ficaram em silêncio, caminhando lado a lado. Não demorou muito para chegarem até a loja de instrumentos, com Daniel tomando as rédeas da situação e indo falar com o atendente, entregando o amplificador e explicando o problema.
Porém ele era novato, e insistiu que não havia nada de errado com a caixa. Querendo provar que estava certo, Daniel tomou a liberdade de pegar uma guitarra da exposição, plugar no amplificador e dar um acorde, incomodando todos no ambiente com o som. Perdido, o atendente recebeu uma aula de funcionamento dos instrumentos e da caixa vinda de Daniel - não que eles estivesse se exibindo (certo, talvez um pouquinho) - , mas por ele querer um conserto bem feito, temendo que ele passasse a informação errada.
Daniel só não contava com o dono do imóvel estar bem próximo a eles, ouvindo atentamente cada argumento do adolescente - e ao invés de achar que ele seria um cliente sem razão, estava gostando do seu perfil. Ele parecia saber tocar e entendia MUITO de música e instrumentos. E estranhamente sabia a dinâmica e disposição da loja.
-Com licença, meu rapaz. - O dono interrompeu a conversa. - Posso falar com você um instantinho?
Temendo ter feito algo, Daniel olhou de relance para Julie, que não entendia nada.
-É claro.
O dono o levou até o seu escritório, preparando a sua proposta.
-Quantos anos você tem?
-Dezessete….. - Daniel estranhava tudo aquilo. - Eu fiz alguma coisa?
-Talvez. Sei que não é maior de idade, mas estaria interessado em um emprego de meio período aqui?
Daniel ficou algum tempo em silêncio, de olhos arregalados, processando a informação.
-Eu ouvi a sua conversa com meu funcionário e percebi que você tem potencial. Por acaso sabe tocar? Precisamos de pessoas como você por aqui, que entendam sobre o que estão vendendo e ajudem os clientes a entenderem um pouco mais sobre a música. Não é só o lucro ou a venda, mas trabalhamos com o gosto por música.
-Eu…. É sério? - Daniel abria um sorriso no rosto.
-Totalmente sério. A vaga é sua se quiser.
-Eu aceito, é claro que aceito! Martin e Félix vão ficar tão felizes que…..
-Eu vi que estava acompanhado, sua namorada?
-E minha vocalista. O senhor perguntou se eu tocava, eu tenho uma banda. Os Insólitos, vamos tocar no final de semana na loja de discos do Klaus, no centro, mas nosso amplificador queimou hoje no ensaio.
-Com certeza eu já ouvi falar, vocês são bons, muito bons. Acho que conseguimos aprontar o seu amplificador até a sexta. Quanto aos seus horários…. Fica bom para você segunda, quarta e quinta a tarde? Vai atrapalhar os seus estudos?
-Sem problemas algum! Vou terminar os estudos em seis meses, consigo conciliar o trabalho com as provas.
-Ótimo! Apareça aqui na quarta, às 13h, com toda a sua documentação para oficializarmos. Pelo o que vi aqui hoje você tem potencial, garoto.
-Obrigado, muito obrigado! - Daniel apertou a mão do chefe animadamente, indo encontrar com Julie.
Ela estava no centro da loja, esperando o namorado ansiosa. Quando viu ele sair do escritório com um sorriso no rosto, se empolgou mesmo sem saber o que tinha acontecido. Daniel sequer esperou eles saírem, levantou Julie no colo e a rodopiou ali mesmo, mais do que feliz.
-DANIEL! -Julie deu um gritinho, sendo puxada para fora da loja. - O que aconteceu?!
-Ele me ofereceu um emprego! EU agora sou funcionário de meio período daqui!
Julie deu novamente um gritinhos, se jogando nos braços de Daniel e o abraçando com força e quando menos percebeu, seus lábios já tinham sido capturados por ele, em um beijo apaixonado - que infelizmente era dificultado pelo o seu sorriso de felicidade.
-Quando precisa vir para cá? - Julie perguntou, vermelha pelo beijo.
-Segundas, quartas e sextas à tarde, mas agora que seu pai sabe sobre a gente, podemos ensaiar nos finais de semana.
-E por falar no meu pai, será que ele está enchendo muito Martin e Félix?
-Eu sou suspeito de falar, tive até que mostrar minha identidade para provar para o meu sogro que não era velho. - Daniel abraçou a cintura de Julie e tomaram o caminho de volta para a casa dela.
-Isso porque ele pensa que você é só o meu guitarrista, imagina se ele vê a gente assim?
-O plano é ele justamente não ver, pelo menos até daqui a um ano e meio. Não queremos que ele descubra que você se apaixonou por mim enquanto eu ainda era um fantasma, não é?
-Posso usar a desculpa que é um amor de outras vidas - Julie disse na cara de pau.
-E eu não duvido de nada disso. - Daniel estalou um beijo em sua bochecha, a apertando mais contra o seu corpo. - Não tenho vergonha de dizer que eu te amo, Julie. - Ele sussurrou em seu ouvido.
-Não é meio cedo para dizer isso?
-Não quando esse sentimento está aqui desde a ideia maluca da Bia de namorar aquele Leo.
Julie se surpreendeu.
-Desde essa época?
-O tempo que passamos juntos para te distrair acabou me afetando mais do que deveria. Eu ofereci a minha amizade por você estar tristinha e, bem…. Acabei me apaixonando.
-Daniel…. - Julie se derreteu, o puxando para mais um beijo, sentindo-se confortável no abraço do guitarrista.
Ela não ligava se estavam em público, no final do dia. Sequer ligava se ainda era muito cedo para confessarem a dimensão de seus sentimentos, apenas queria demonstrar para Daniel como se sentia, já que não tinha segurança de usar suas palavras. Daniel acompanhava o seu ritmo, tendo noção que se Martin estivesse por ali gritaria para procurarem um quarto, tamanha intensidade dos dois juntos, mas eles precisavam se acalmar.
Pelo menos até estarem a sós, em um ambiente fechado - livre de qualquer piada.
-Agora, se você não quiser que seu pai nos descubra, acho melhor nos separarmos. - Daniel resmungou na esperança de Julie não o escutar, infelizmente sendo separado dela.
Quando eles enfim entraram em casa, descobriram que seu Raul e Bia estavam na cozinha, preparando um lanche para Martin e Félix, que esperavam comportadamente na bancada da cozinha.
-Ele ofereceu sanduíches e nós não pudemos recusar. - Martin explicou, olhando para Daniel que ria da cena.
Martin apontou discretamente para a boca de Daniel, indicando que estava levemente manchada de batom, que prontamente correu até o espelho mais próximo para se limpar.
-Como foi lá?
-Fica pronto até a sexta, e….. Você quer contar, Daniel? Daniel? - Julie procurou pelo guitarrista, não o encontrando?
Será que ele ainda conseguia ficar invisível e intangível?
Será que tudo tinha dado errado e eles desapareceriam?
Antes que surtasse, Julie viu o guitarrista aparecendo com a boca levemente úmida, entendendo que seu batom deveria ter borrado nele, mas milagrosamente nela não.
-Eles estavam precisando de alguém por meio período e eu consegui a vaga!
Todos no ambiente se animaram, parabenizando o guitarrista (embora seu Raul não entendesse a profundidade de tudo aquilo).
-Eles disseram que já conheciam a banda, que nós somos, bons, muito bons. Falaram também que o amplificador vai ficar pronto para o show no final de semana.
-Aí, filha! Papai vai estar bem na frente! -Seu Raul já estava a par dos acontecimentos futuros, fazendo questão de ir conferir a banda da filha e dos seus amigos.
-Sobre isso, nós vamos ter que repensar a ideia dos figurinos. - Bia declarou.
-Mas eles são a identidade da banda. - Félix ficou ansioso com a aparição repentina.
-As máscaras sim, mas os macacões não.
Seu Raul não entendia bulhufas, preferindo se retirar na sua ignorância. Seu escritório teve de passar por uma dedetização de emergência, mas não significava que ele não precisasse trabalhar. Desejando uma boa tarde para os adolescentes, deixou eles sozinhos sentados em um círculo trabalhando em um caderno, desenhando alguma coisa.
Fosse o que fosse, ele descobriria no final de semana.
Se eram amigos dos seus filhos e Bia, também eram os seus amigos.
